O Sol, a Lua e as Estrelas
Temos mais razão para nos surpreender com o quão poucas são as referências astronômicas, do que para nos espantar com a quantidade delas! Somos ensinados de que a geometria e a Maçonaria eram, originalmente, termos sinônimos, e a geometria — a quinta das Sete Artes e Ciências Liberais — recebe mais destaque em nosso grau de Companheiro do que a sétima, a Astronomia. No entanto, os primórdios da astronomia são muito anteriores ao surgimento do mais antigo geômetra. Com efeito, a geometria surgiu como resposta às incessantes indagações do homem quanto ao “porquê” dos fenômenos celestes.
Nestes dias modernos, é difícil visualizar a importância vital que os céus, em geral, tinham para o homem primitivo. Mal conseguimos conceber o terror que ele sentia diante de um eclipse ou de um cometa, ou compreender a reverência que dedicava ao Sol e à sua noiva, a Lua. Somos instruídos demais. Sabemos demais sobre “as proporções que conectam esta vasta máquina”.
O astrônomo empurrou as fronteiras de sua ciência para além das indagações da maioria de nós; as perguntas que surgiam a partir das observações visuais desassistidas já foram todas respondidas. Substituímos fantasias por fatos a respeito do Sol, da Lua, do sistema solar, do cometa e do eclipse.
Albert Pike, o grande estudioso maçônico — “que encontrou a Maçonaria em um tugúrio e a deixou em um palácio” — diz:
Não podemos, nem mesmo no mais remoto grau, sentir — embora possamos parcial e imperfeitamente imaginar — como aqueles grandes, primitivos e singelos filhos da Natureza sentiam em relação às Hostes Estelares, ali, nas encostas do Himalaia, nas planícies caldeias, nos desertos persas e medos, e às margens do grande e enigmático rio Nilo. Para eles, o universo era vivo — repleto de forças e poderes misteriosos, além de sua compreensão. Não o viam como uma máquina, nem como um vasto mecanismo de relojoaria; mas sim como uma grande criatura viva, ora simpática, ora hostil ao homem. Para eles, tudo era mistério e milagre, e as estrelas que cintilavam acima falavam a seus corações quase em uma linguagem audível.
Júpiter, com seu esplendor régio, era o Imperador das legiões estelares. Vênus contemplava amorosamente a Terra e a abençoava; Marte, com seus fogos carmesins, ameaçava guerra e desgraça; e Saturno, frio e grave, os gelava e repelía. A Lua sempre mutável, fiel companheira do Sol, era um milagre e maravilha constantes; e o próprio Sol, o emblema visível do poder criativo e gerador. Para eles, a Terra era uma vasta planície sobre a qual giravam o Sol, a Lua e os planetas — seus servos, moldados para lhe conceder luz.
Entre as estrelas, algumas eram existências benéficas, que traziam consigo a primavera, os frutos e as flores — outras eram sentinelas fiéis, que anunciavam as vindouras inundações, as estações de tempestade e os ventos mortíferos — outras, ainda, arautos do mal, que, ao predizerem constantemente, pareciam causar. Os eclipses eram, para eles, presságios do mal, com causas ocultas no mistério e no sobrenatural. O retorno regular das estrelas, as vindas de Arcturo, Órion, Sírius, as Plêiades e Aldebarã, bem como as jornadas do Sol, não eram mecânicas, mas voluntárias, aos seus olhos.
Como se admirar, pois, que a astronomia se tornasse, para eles, a mais importante das ciências? Que aqueles que a dominavam se tornassem governantes? E que vastas edificações — as pirâmides, a torre ou templo de Bel, e outras semelhantes no Oriente — fossem construídas para fins astronômicos?
E como se admirar, que, em sua grande e infantil simplicidade, adorassem a Luz, o Sol, os Planetas e as estrelas; que os personificassem, e cressem avidamente nas histórias inventadas para eles, naquela era em que a capacidade de crer era infinita — como, na verdade, se refletirmos bem, ainda é e sempre será?
Os anglo-saxões costumam considerar a história como sendo sua história; a ciência como sua ciência; a religião como sua religião. Tal ponto de vista, um tanto ingênuo, dificilmente se sustenta diante de um exame menos egoísta do conhecimento humano. Os marinheiros de Colombo acreditavam que cairiam “da borda” de um mundo plano, e, no entanto, Pitágoras já sabia que a Terra era uma esfera. A eclíptica era conhecida antes mesmo da construção do Templo de Salomão. Os chineses previam eclipses muito, muito antes que os europeus medievais deixassem de vê-los como presságios de desgraça!
A tradição astronômica da Maçonaria é muito antiga. Os fundamentos de nossos graus são muito mais antigos do que podemos comprovar por meio de evidências documentais. Não é, de forma alguma, forçar a credulidade afirmar que o estudo que precede a Geometria, a primeira e mais nobre das ciências, deve ter sido impresso em nossa Ordem — em suas cerimônias e em seus símbolos — muito antes que Preston e Webb realizassem suas engenhosas revoluções em nossos rituais, e nos legassem o sistema de graus que utilizamos — sob uma forma ou outra — até os dias de hoje.
As referências astronômicas em nossos graus iniciam-se com os pontos cardeais; Leste, Oeste e Sul; e o lugar das trevas, o Norte. Somos instruídos sobre a razão pela qual o Norte é considerado uma região de escuridão, com base na posição do Templo de Salomão em relação à eclíptica — uma concepção astronômica das mais importantes.
O Sol é o símbolo próprio do Past Master; nossos Veneráveis regem suas Lojas — ou, ao menos, assim se espera! — com a mesma regularidade com que o Sol rege o dia e a Lua governa a noite.
Nossa explicação sobre as Três Luzes Menores é, evidentemente, uma adaptação de um conceito que remonta às religiões mais antigas — especificamente à tríade egípcia de Ísis, Osíris e Hórus, representados pelo Sol, pela Lua e por Vênus.
A Circumambulação ao redor do Altar é uma imitação do curso do Sol. Percorremos nossas Lojas de Leste a Oeste, passando pelo Sul, assim como os adoradores do Sol, que imitaram o trajeto diário de sua divindade pelos céus. As medidas do tempo são, de fato, inteiramente uma questão de astronomia. Dias e noites existiam antes do homem e, portanto, antes da astronomia; mas as horas e os minutos, o alto e o baixo do doze, são invenções da mente humana, que dependem da observação astronômica do Sol no Meridiano para determinar o meio-dia e, consequentemente, todos os outros períodos de tempo.
De fato, somos ensinados isso no trabalho da Câmara do Meio, onde damos à Geometria o lugar principal como meio pelo qual o astrônomo pode “fixar a duração do tempo e das estações, dos anos e dos ciclos”.
No topo das Colunas, representando aquelas no pórtico do Templo de Salomão, aparecem os globos terrestres e celestes. No grau de Companheiro, somos ensinados, em uma linguagem bela e poética, que “incontáveis mundos nos rodeiam, todos moldados pelo mesmo Divino Artífice, que giram através da vasta imensidão e são todos conduzidos pela mesma infalível lei da natureza.”
Nossos Irmãos Antigos, observando que o sol nascia e se punha, determinavam facilmente o Leste e o Oeste de maneira geral. À medida que o Sol se levantava e se punha através de uma variação de 47 graus ao norte e ao sul durante um período de seis meses, as determinações não eram exatas. Os primeiros observadores caldeus, precursores dos astrônomos das épocas posteriores, perceberam que os céus aparentemente em movimento giravam em torno de um ponto quase coincidente com uma certa estrela. Sabemos que o verdadeiro norte se desvia cerca de um grau e meio da Estrela Polar, mas suas observações foram suficientemente precisas para determinar um Norte — e, consequentemente, o Leste, o Oeste e o Sul.
A referência à eclíptica no Grau Sublime tem desconcertado muitos irmãos que não estudaram os elementos da astronomia. Os primeiros astrônomos definiram a eclíptica como o plano “hipotético” e “circular” do caminho da Terra ao redor do Sol, com o Sol no “centro”.
Na realidade, o Sol não está no centro, e o caminho da Terra ao redor do Sol não é circular. A Terra viaja uma vez ao redor do Sol em trezentos e sessenta e cinco dias, e uma fração, em um caminho “elíptico”; o Sol está em um dos focos dessa elipse. O eixo da Terra, ao redor do qual ela gira uma vez a cada vinte e quatro horas, criando assim a noite e o dia, está inclinado em relação a esse plano hipotético em 23,5 graus. Em um ponto de seu percurso anual, o pólo norte da Terra está inclinado em direção ao Sol por essa quantidade. Ao alcançar o meio de seu caminho, o pólo norte está inclinado para longe do Sol por esse mesmo ângulo. O dia mais longo do hemisfério norte – 21 de junho – ocorre quando o pólo norte está mais inclinado em direção ao Sol.
Um ponto situado entre as latitudes 23 graus e meia ao norte e 23 graus e meia ao sul do equador receberá os raios do Sol ao meridiano (doze horas altas, ou meio-dia) a partir do norte em algum momento durante o ano. O Templo de Salomão em Jerusalém, situado na latitude de 31 graus e 47 segundos ao norte, estava além desse limite. Assim, em nenhum momento do ano, o Sol ou a Lua ao meridiano “lançavam seus raios na porção norte” do templo.
Como a astronomia na Europa é relativamente moderna, alguns argumentaram que essa razão para considerar o Norte, Maçonicamente, como um lugar de escuridão, deve ser também relativamente moderna. Isso é completamente equivocado — Pitágoras (para ir mais longe) reconheceu a obliquidade do eixo do mundo em relação à eclíptica, assim como o fato de que a Terra era uma esfera suspensa no espaço. Embora Pitágoras (510 a.C.) seja muito mais jovem que o Templo de Salomão, ele é quase dois mil anos mais velho do que os começos da astronomia na Europa.
O “mundo celeste e terrestre” nas colunas de bronze foram adicionados pelos criadores modernos dos rituais. Salomão não os conhecia, mas os contemporâneos de Salomão acreditavam que os céus eram uma esfera girando em torno da Terra. Para eles, a Terra permanecia imóvel; uma esfera oca com sua superfície interna pontilhada de estrelas. A lenta rotação da “esfera celeste” é tão antiga quanto as observações humanas do “céu adornado de estrelas.”
Deve-se notar que as esferas terrestres e celestes são ambas usadas como emblemas de universalidade. Elas não são meras duplicações para ênfase; elas ensinam sua própria parte individual da “universalidade.” O que é “universal” na Terra – como, por exemplo, a necessidade da humanidade de respirar, beber água e comer para viver – não é necessariamente “universal” em todo o universo. Não temos conhecimento de que algum outro planeta em nosso sistema solar seja habitado – as evidências que existem tendem a indicar o contrário.
Não temos conhecimento de que algum outro sol tenha planetas habitados em seu sistema. Também não sabemos que eles não tenham. Se a vida existe em algum outro mundo, para nós desconhecido, pode ser completamente diferente da vida neste planeta. Assim, um símbolo de universalidade que se aplicasse apenas à Terra seria uma autocontradição.
A verdadeira universalidade significa o que diz. Aplica-se ao universo todo. Enquanto a Caridade de um Maçom, considerada como auxílio aos pobres e necessitados, deve obviamente ser confinada a este planeta específico, sua caridade de pensamento pode, como nos é ensinado, se estender “pelos vastos domínios da eternidade.” Portanto, “o mundo terrestre” e “o mundo celestial” em nossas representações das colunas, ao denotar a universalidade, significa que os princípios de nossa Ordem não são fundados em meras condições terrestres e verdades transitórias, mas descansam sobre fundamentos divinos e ilimitados, coexistentes com todo o cosmos e seu Criador.
Somos ensinados sobre o “Olho que Tudo Vê, a quem o Sol, a Lua e as Estrelas obedecem e sob cujo cuidado vigilante até os cometas realizam suas grandiosas revoluções.” Nessa referência astronômica, curiosamente, encontramos um argumento potente, tanto para o extremo cuidado na transmissão do ritual imutável de boca a ouvido, quanto para a urgente necessidade de coibir os irmãos bem-intencionados que desejam “melhorar” o ritual.
A palavra “revolução” neste parágrafo (como está impresso nos primeiros monitores de Webb) fixa-a como uma concepção relativamente moderna. Tycho Brahe, progenitor dos modernos fabricantes e usuários de finos instrumentos entre os astrônomos, cujas descobertas deixaram uma marca indelével na astronomia, não fez qualquer tentativa de considerar os cometas como corpos orbitais. Galileu os considerava como “emanações da atmosfera.” Só no século XVII alguns espíritos ousados sugeriram que esses presságios celestes de mal, esses terríveis demônios celestiais que haviam inspirado o terror nos corações dos homens por gerações incontáveis, eram, na verdade, partes do sistema solar e que muitos, senão a maioria deles, eram periódicos, retornando novamente e novamente; em outras palavras, que eles giravam ao redor do Sol.
Obviamente, então, este trecho de nosso ritual não pode ter chegado até nós por uma transmissão “de boca a ouvido” de uma época anterior àquela em que os homens começaram a acreditar que um cometa não era um presságio de mal, mas sim uma parte do sistema solar. As chamadas “lojas lunares” têm uma base muito mais prática do que astronômica.
Nos primeiros dias da Maçonaria, tanto na Inglaterra quanto neste país, muitas, se não a maioria, das lojas se reuniam em datas fixadas com antecedência, mas de acordo com o momento em que a lua estava cheia; não porque a lua “governasse” a noite, mas porque iluminava o caminho do viajante! Em tempos em que as estradas eram apenas caminhos lamacentos entre cidades e vilarejos, quando qualquer viagem era arriscada e as noites escuras extremamente perigosas, a iluminação natural da lua, tornando o caminho mais fácil de encontrar e dificultando as depredações dos ladrões de estrada, era uma questão de grande importância! Uma última e curiosa derivação de um símbolo maçônico dos céus, e terminamos. O símbolo universalmente associado aos Mordomos de uma loja maçônica é a cornucópia.
De acordo com a mitologia grega, que remonta ao alvorecer da civilização, o Deus Zeus foi alimentado na infância pelo leite de uma cabra, Amalthea. Em gratidão, o Deus colocou Amalthea para sempre nos céus como uma constelação, mas antes deu um dos chifres de Amalthea a suas enfermeiras, com a garantia de que ele derramaria para elas tudo o que desejassem! O “chifre da abundância,” ou a cornucópia, é assim um símbolo de fartura. A cabra da qual ele veio pode ser encontrada pelos curiosos entre as constelações sob o nome de Capricórnio. O “Trópico de Capricórnio” de nossos tempos escolares é o limite sul da oscilação do sol no caminho que marca a eclíptica, no qual ele inclina primeiro seu polo norte e depois seu polo sul em direção ao nosso astro. Assim, existe uma conexão, não menos direta por ser tênue, entre os nossos Mordomos, seu símbolo, as luzes na loja, o “lugar de escuridão” e o Templo de Salomão.
De tais ligações curiosas e interessantes sendas é o estudo da astronomia e sua conexão com a Maçonaria, mais belo quando vemos olho a olho com o Salmista na Grande Luz:
“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.”
Salmo 19:1
Originalmente publicado: SHORT TALK BULLETIN – Vol. VIII, Março de 1930, nº 3.
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