História do Arco Real – Parte I

ALBERT G. MACKEY

  • A Destruição do Templo

“Lançaram fogo no teu santuário; profanaram-no, deitando por terra a habitação do teu nome.” — Salmos

Não há parte da história sagrada, exceto o relato da construção do templo, seja mais interessante para o maçom avançado que aquela relacionada à destruição de Jerusalém, ao cativeiro dos judeus na Babilônia e à subsequente restauração sob Ciro com o propósito de reconstruir “a casa do Senhor”. Intimamente conectados, como são os eventos que se comemoram neste período, com a organização do grau do Arco Real, é impossível que qualquer maçom que tenha sido exaltado a esse grau possa compreender plenamente a natureza e o significado dos segredos que lhe foram confiados, a menos que tenha dedicado parte do seu tempo ao estudo dos acontecimentos históricos aos quais esses segredos se referem.
A história do povo judeu, desde a morte de Salomão até a destruição final do Templo, foi uma contínua sucessão de dissensões civis internas, revoltas no governo e apostasia na religião. Mal Reoboão, filho e sucessor de Salomão, havia ascendido ao trono, quando sua conduta áspera e tirânica enfureceu de tal modo o povo que dez das tribos se revoltaram contra sua autoridade e, colocando-se sob o governo de Jeroboão, filho de Nebate, formaram o reino separado de Israel, enquanto Reoboão continuou a reinar sobre as tribos de Judá e Benjamim, que, doravante, constituíram o reino de Judá, cuja capital permaneceu em Jerusalém. A partir de então, a história da Palestina assume um caráter dual. As dez tribos revoltadas, que constituíram a monarquia israelita, logo estabeleceram uma religião cismática, a qual terminou, por fim, na idolatria — conduzindo à sua ruína e dispersão definitivas. Contudo, as duas tribos remanescentes mostraram-se apenas um pouco mais fiéis ao Deus de seus pais, levando sua idolatria a tal extremo que, por fim, dificilmente se encontrava uma cidade em toda a Judeia que não possuísse sua divindade tutelar, tomada dos deuses de seus vizinhos pagãos. Até mesmo em Jerusalém, a ‘cidade santa’, o profeta Jeremias nos relata que altares foram erguidos a Baal. Israel foi o primeiro a receber o castigo por essa trajetória de impiedade, e as dez tribos foram levadas ao cativeiro, de onde jamais retornaram. Como nação, foram riscadas do livro da história.

Mas este exemplo salutar foi perdido para a Judeia. A destruição das dez tribos de modo algum impediu o progresso das outras duas em direção à idolatria e à devassidão. Judá e Benjamim, contudo, jamais estiveram sem uma linhagem de profetas, sacerdotes e homens santos, cujos ensinamentos e exortações, por vezes, traziam os judeus apóstatas de volta à sua primeira fidelidade, e, por um breve período, restauravam o puro teísmo da dispensação mosaica.

Entre esses breves, mas efêmeros intervalos de regeneração, devemos contar o piedoso reinado do bom Rei Josias, durante o qual os altares da idolatria em todo o seu reino foram destruídos, o templo foi reparado e seus serviços regulares restaurados. Foi na execução desse louvável dever que uma cópia do Livro da Lei, que havia sido perdida há muito tempo, foi encontrada em uma cripta do templo, e, após ter sido lida publicamente aos sacerdotes, levitas e ao povo, foi novamente, sob a direção da profetisa Hulda, depositada em um local secreto.

Mas, não obstante essa descoberta fortuita do Livro da Lei, e não obstante todos os esforços do Rei Josias para restabelecer o culto de seus pais, os judeus estavam tão apego às práticas da idolatria que, após sua morte, encorajados por seu filho e sucessor Jeoaquim, um monarca ímpio, rapidamente retornaram à adoração de deuses pagãos e à observância de ritos pagãos.

A longanimidade de Deus finalmente se esgotou, e no reinado deste rei Jeoaquim, começou a série de punições divinas, que só terminou com a destruição de Jerusalém e o cativeiro de seus habitantes.

O instrumento escolhido pela Divindade para levar a cabo seus desígnios na punição dos judeus idólatras foi Nabucodonosor, rei dos caldeus, que então governava Babilônia: e como este monarca, e o país que ele governava, desempenharam um papel importante na sequência de eventos ligados à organização do grau do Arco Real, é necessário que façamos uma pausa na narrativa em que estamos envolvidos para fazer uma breve análise da localidade de Babilônia, a sede do cativeiro, e da história da nação caldeia, cujo líder foi o conquistador de Judá.

“Poucos países da antiguidade”, diz Heeren, “têm tão justa reivindicação à atenção do historiador como a Babilônia. A fertilidade de seu solo, a riqueza de seus habitantes, o esplendor de suas cidades, o refinamento de sua sociedade, continuaram a conferir-lhe uma fama preeminente ao longo de uma sucessão de épocas. Ocupava uma faixa estreita de terra, situada entre o rio Tigre a leste e o Eufrates a oeste, estendendo-se por cerca de quinhentas e quarenta milhas de norte a sul. Os primeiros habitantes eram, sem dúvida, de origem semítica, derivando sua existência de uma origem comum com os hebreus, embora ainda seja uma questão para o historiador se originalmente vieram da Índia ou da península da Arábia. Inicialmente, faziam parte da grande monarquia assíria, mas como sua história precoce não tem conexão com a Maçonaria do Arco Real, pode ser omitida sem mais discussão. Cerca de seiscentos e trinta anos antes da era cristã, Babilônia, a cidade principal, foi conquistada por Nabucodonosor, o rei dos caldeus, uma raça nômade, que, descendendo de suas terras nas montanhas de Taurus e do Cáucaso, entre o mar Negro e o mar Cáspio, subjugou os países do sul da Ásia e se tornou mestre dos impérios sírio e babilônico.”

Nabucodonosor foi um monarca belicoso e, durante seu reinado, esteve envolvido em muitos conflitos para aumentar seu poder e expandir seus domínios. Entre outras nações que caíram sob seus braços vitoriosos, estava a Judeia, cujo rei Jehoahaz,, ou como foi posteriormente chamado Jehoiakim, foi obrigado a comprar a paz pagando um tributo anual aos seus conquistadores.

Jehoiakimfoi subsequentemente assassinado por Nabucodonosor, e seu filho Jeconias subiu ao trono de Israel. A opressão dos babilônios continuou, e após um reinado de três meses, Jeconias foi deposto pelo rei dos caldeus, e seu reino foi dado a seu tio Zedequias, um monarca que é caracterizado por Flávio Josefo como “um desprezador da justiça e de seus deveres

Foi no reinado deste soberano ímpio que ocorreram os incidentes que são comemorados na primeira parte do grau do Arco Real. Tendo se rebelado repetidamente contra a autoridade do rei babilônico, a quem devia sua ascensão ao trono, Nabucodonosor marchou com um exército até a Judeia e, após um cerco severo de dezoito meses, reduziu Jerusalém. Ele então mandou nivelar a cidade ao chão, queimar o palácio real, saquear o templo e levar os cativos para Babilônia.

Esses eventos são simbolicamente detalhados no Arco Real, e, em alusão a eles, o trecho do Livro das Crônicas que os registra é lido de forma apropriada durante as cerimônias dessa parte do grau.

Zedequias tinha vinte e um anos de idade quando começou a reinar e reinou onze anos em Jerusalém. Ele fez o que era mau aos olhos do SENHOR, o seu Deus, e não se humilhou diante do profeta Jeremias, que falava como porta-voz do SENHOR. Também se revoltou contra o rei Nabucodonosor, que o havia obrigado a fazer um juramento em nome de Deus. Tornou‑se muito obstinado e, tendo endurecido o seu coração, não quis se voltar para o SENHOR, o Deus de Israel. Além disso, todos os líderes dos sacerdotes e o povo se tornaram cada vez mais infiéis, seguindo todas as práticas detestáveis das outras nações e contaminando o templo do SENHOR, consagrado por ele em Jerusalém. O SENHOR, o Deus dos seus antepassados, advertiu‑os vez após vez por meio dos seus mensageiros, pois tinha compaixão do seu povo e do lugar da sua habitação. Eles, porém, zombaram dos mensageiros de Deus, desprezaram as palavras dele e expuseram ao ridículo os seus profetas, até que a ira do SENHOR se levantou contra o seu povo e já não houve remédio.

Esta cláusula preparatória anuncia as causas morais que levaram à destruição de Jerusalém—os maus conselhos e atos de Zedequias,—sua dureza de coração,—sua surdez voluntária às denúncias do profeta do Senhor,—e sua violação de todas as suas promessas de obediência a Nabucodonosor. Mas não foi somente ao Rei que se confinou essa vida pecaminosa. Todo o povo, e até os sacerdotes, os próprios servos da casa do Senhor, estavam infectados pela praga moral. Haviam abandonado os preceitos e observâncias de seus pais, que deveriam tê-los tornado um povo peculiar, e, caindo nas idolatrias de seus vizinhos pagãos, haviam profanado os altares de Javé com o fogo impuro de deuses estranhos. Mensagem após mensagem fora enviada a eles daquele Deus que se designara corretamente como “longânimo e abundante em bondade”—mas tudo foi em vão. As ameaças e advertências dos profetas foram ouvidas com desprezo, e os mensageiros de Deus foram tratados com desdém, e daí o resultado fatal, que é detalhado nos versículos seguintes das Escrituras lidas diante do candidato.

Portanto, Ele trouxe sobre eles o Rei dos Caldeus, que matou seus jovens com a espada, dentro da casa de seu santuário, e não teve compaixão nem de jovem nem de donzela, de ancião ou daquele que se encurvava pela idade: a todos entregou em suas mãos. E todos os utensílios da casa de Deus, grandes e pequenos, bem como os tesouros da casa do Senhor, os tesouros do rei e de seus príncipes—todos estes ele levou para a Babilônia.

Mas o Rei dos Caldeus não se deu por satisfeito com os ricos despojos da guerra que havia conquistado. Não era suficiente que os vasos sagrados do templo—feitos por ordem do Rei Salomão e sob a supervisão daquele ‘artífice hábil e engenhoso’, que ‘ornamentara e embelezara o edifício’ erguido para o culto de Jeová—se tornassem presa de um monarca idólatra. Os pecados profundos do povo e de seu rei requeriam uma pena mais severa. A própria Casa do Senhor—aquele edifício sagrado erguido sobre a ‘eira de Ornã, o jebuseu’, e que constituía a terceira Grande Oferta da Maçonaria nesse mesmo lugar sagrado—deveria ser queimada até suas fundações; a cidade, consagrada por sua presença, deveria ser nivelada ao solo; e seus habitantes, levados a um longo e doloroso cativeiro. Assim prossegue o relato da devastação:

‘E queimaram a Casa de Deus, derrubaram o muro de Jerusalém, e todos os seus palácios queimaram com fogo; e destruíram todos os seus objetos preciosos. E aos que escaparam da espada, ele levou cativos para a Babilônia, onde foram servos seus e de seus filhos até o advento do reino da Pérsia.’

Esses eventos ocorreram no ano 588 antes de Cristo. Contudo, não devemos supor que este tenha sido o início do ‘cativeiro de setenta anos’ profetizado por Jeremias. Tal cativeiro começou dezoito anos antes, no reinado de Jeoaquim, quando Daniel estava entre os primeiros exilados. Contando desde a destruição de Jerusalém sob Zedequias—evento celebrado no Arco Real—até o término do cativeiro sob Ciro, temos apenas cinquenta e dois anos. Por isso, compreende-se que entre os anciãos reunidos para ver os alicerces do segundo templo, havia muitos que haviam testemunhado o esplendor e a magnificência do primeiro.

Contudo, embora a cidade tenha sido destruída e o templo incendiado, as fundações profundas deste último não foram demolidas. A Arca da Aliança, com o Livro da Lei que nela se guardava, foi indubitavelmente consumida na conflagração geral, pois não se faz menção de sua transladação para a Babilônia. No entanto, a sabedoria e a previdência de Salomão haviam providenciado, quatrocentos e setenta anos antes, um meio seguro para a preservação de uma imagem exata daquela arca sagrada.

Assim, encerramos aquilo que pode ser chamado de a primeira seção do grau do Arco Real. O som da guerra abateu-se sobre a nação—o templo foi derrubado—a cidade tornou-se um deserto—ainda assim, em sua desolação, permanece magnífica em suas ruínas de palácios e edifícios imponentes—e o povo foi arrastado em correntes, como cativo, rumo à Babilônia.

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