HISTÓRIA DO ARCO REAL – Part I

por ALBERT G. MACKEY


A destruição do Templo


“Lançaram fogo ao teu santuário; profanaram, derrubando por terra a morada do teu nome.” — Salmos 74:7

Não há parte da história sagrada, exceto talvez o relato da construção do Templo, que deva ser mais interessante para o maçom avançado do que aquela que se relaciona com a destruição de Jerusalém, o cativeiro dos Judeus na Babilônia, e a subsequente restauração sob Ciro com o propósito de reconstruir “a casa do Senhor”.

Intimamente ligados, como os eventos que são comemorados neste período estão, com a organização do grau do Arco Real, é impossível que qualquer maçom que tenha sido exaltado a esse grau possa compreender completamente a natureza e o significado dos segredos que lhe foram confiados, a menos que ele tenha dedicado algum tempo ao estudo dos incidentes históricos aos quais esses segredos se referem.

A História do Povo Judeu, desde a morte de Salomão até a destruição final do templo, foi uma série contínua de dissensões civis internas, revoltas contra o governo e apostasias na religião. Mal Roboão, filho e sucessor de Salomão, havia ascendido ao trono, sua conduta severa e tirânica enfureceu tanto o povo que dez das tribos se revoltaram contra sua autoridade e, colocando-se sob o governo de Jeroboão, filho de Nebate, formaram o reino separado de Israel, enquanto Roboão continuou a governar sobre as tribos de Judá e Benjamim, que a partir de então constituíram o reino de Judá (cuja capital permaneceu em Jerusalém).

A partir desse momento, a história da Palestina se bifurca. As dez tribos rebeldes que constituíam a monarquia israelita logo formaram uma religião cismática, que acabou resultando em idolatria e causou sua ruína e dispersão finais. Mas as duas tribos restantes mal se mostraram fiéis ao Deus de seus pais, e levaram sua idolatria a tal ponto que, por fim, havia poucas cidades em toda a Judéia que não tivessem sua divindade tutelar emprestada dos deuses de seus vizinhos pagãos. Até mesmo em Jerusalém, a “cidade santa”, o profeta Jeremias nos diz que foram erguidos altares a Baal. Israel foi o primeiro a receber seu castigo por essa trajetória de impiedade, e as dez tribos foram levadas para um cativeiro do qual jamais retornaram. Como nação, elas foram riscadas do rol da história.

Mas este exemplo salutar perdeu-se para Judá. A destruição das dez tribos de modo algum impediu o progresso das outras duas em direção à idolatria e à licenciosidade. Judá e Benjamim, no entanto, nunca ficaram sem uma linhagem de profetas, sacerdotes e homens santos, cujos ensinamentos e exortações por vezes traziam os judeus apóstatas de volta à sua primeira lealdade, e por um breve período restauravam o puro teísmo da dispensação Mosaica.

Entre esses brilhantes, mas evanescentes, intervalos de regeneração, devemos contar o piedoso reinado do bom Rei Josias, durante o qual os altares de idolatria em todo o seu reino foram destruídos, o Templo foi reparado e seus serviços regulares restaurados. Foi na execução desse louvável dever que uma cópia do Livro da Lei, que há muito estava perdida, foi encontrada em uma cripta do Templo e, depois de ter sido lida publicamente aos sacerdotes, aos levitas e ao povo, foi novamente, por ordem da profetisa Hulda, depositada em um lugar secreto.

Não obstante esta descoberta fortuita do Livro da Lei, e não obstante todos os esforços do Rei Josias para restabelecer a adoração de seus pais, os Judeus estavam tão apegados às práticas de idolatria que, após a sua morte, sendo encorajados por seu filho e sucessor Joacaz, que era um monarca ímpio, eles retornaram rapidamente à adoração de divindades pagãs e à observância de ritos pagãos.
A longanimidade de Deus esgotou-se finalmente, e no reinado deste Rei Joacaz, começou a série de castigos divinos, que só terminou na destruição de Jerusalém e no cativeiro dos seus habitantes.
O instrumento selecionado pela Divindade para levar a cabo os seus desígnios no castigo dos Judeus idólatras foi Nabucodonosor, rei dos Caldeus, que então reinava na Babilônia; e como este monarca, e o país que ele governava, desempenham um papel importante na série de eventos que estão ligados à organização do grau do Arco Real, é necessário que façamos uma pausa na narrativa em que estávamos envolvidos, para dar uma breve vista da localidade da Babilônia, o centro do cativeiro, e da história da nação Caldeia, cujo líder é o conquistador de Judá.

“Poucos países da antiguidade”, diz Heeren1, “têm um direito tão justo de chamar a atenção do historiador quanto a Babilônia.” A fertilidade do seu solo, a riqueza dos seus habitantes, o esplendor das suas cidades, o refinamento da sua sociedade, continuaram a dar-lhe uma preeminência através de uma sucessão de épocas. Ocupava uma estreita faixa de terra, jazendo entre o rio Tigre a leste e o Eufrates a oeste, e estendendo-se cerca de quinhentas e quarenta milhas a oeste do norte. Os primeiros habitantes eram, sem dúvida, da raça Semítica, derivando a sua existência de uma origem comum com os Hebreus, embora ainda seja uma questão para o historiador se eles vieram originalmente da Índia ou da península da Arábia. Eles formaram originalmente parte de um grande império Assírio, mas a sua história inicial, não tendo nenhuma ligação com a Maçonaria do Arco Real, pode ser deixada de lado para uma discussão posterior. Cerca de seiscentos e trinta anos antes da era Cristã, a Babilônia, a cidade principal, foi conquistada por Nabucodonosor, o Rei dos Caldeus, uma raça nômade, que, descendo das suas terras nas montanhas do Taurus e do Cáucaso, entre o Euxino e o Cáspio, esmagou os países do Sul da Ásia, e se tornou mestre dos impérios Sírio e Babilônico.

Nabucodonosor era um monarca guerreiro, e durante o seu reinado esteve empenhado em muitos combates para aumentar o seu poder e a extensão dos seus domínios. Entre outras nações que caíram sob as suas armas vitoriosas, estava a Judeia, cujo Rei Jeoacaz, ou como ele foi posteriormente chamado, Jeoiaquim, foi obrigado a comprar a paz pagando um tributo anual aos seus conquistadores.

Jeoiaquim foi subsequentemente morto por Nabucodonosor, e seu filho, Jeoiaquim, ascendeu ao trono de Israel. A opressão dos Babilônios ainda continuou, e após um reinado de três meses, Jeoiaquim foi deposto pelo Rei dos Caldeus, e seu reino foi entregue ao seu tio, Zedequias, um monarca que é caracterizado por Josefo como “um desprezador da justiça e do seu dever”.

Foi no reinado deste soberano ímpio [Zedequias] que ocorreram os incidentes que são comemorados na primeira parte do grau do Arco Real. Tendo-se rebelado repetidamente contra a autoridade do Rei Babilônico, a cujo nomeamento ele devia o seu trono, Nabucodonosor retornou com um exército à Judeia e, pondo sítio a Jerusalém, após uma luta severa com a duração de dezoito meses, conseguiu tomá-la. Ele então ordenou que a cidade fosse nivelada com o chão, que o palácio real fosse incendiado, o templo fosse saqueado, e os cativos fossem levados para a Babilônia.

Estes eventos são detalhados simbolicamente no Arco Real e, em alusão a eles, a passagem do Livro de Crônicas que os regista é apropriadamente lida durante as cerimónias desta parte do grau.

Zedequias tinha vinte e um anos de idade quando começou a reinar, e reinou onze anos em Jerusalém. E fez o que era mau aos olhos do Senhor seu Deus, e não se humilhou perante Jeremias, o profeta, que falava da boca do Senhor. E rebelou-se também contra o Rei Nabucodonosor, e endureceu o seu pescoço e obstinou o seu coração, deixando de se converter ao Senhor Deus de Israel. Além disso, todos os chefes dos sacerdotes e o povo transgrediram em muito, seguindo todas as abominações dos gentios; e contaminaram a casa do Senhor, que Ele santificara em Jerusalém, e o Senhor Deus de seus pais lhes enviou mensageiros, porque tinha compaixão do seu povo e da sua habitação. Mas eles escarneceram dos mensageiros de Deus, desprezaram as suas palavras e fizeram troca dos seus profetas, até que a ira do Senhor se levantou contra o seu povo, e não houve mais remédio.

Esta cláusula preparatória anuncia as causas morais que levaram à destruição de Jerusalém—os maus conselhos e ações de Zedequias, — a dureza de seu coração, — sua surdez voluntária às denúncias do profeta do Senhor, — e sua violação de todas as suas promessas de obediência a Nabucodonosor. Mas não apenas ao Rei se limitou esta vida de pecado. Todo o povo, e até mesmo os sacerdotes, os próprios servos da casa do Senhor, foram infectados com a praga moral. Eles abandonaram os preceitos e observâncias de seus pais, que deveriam tê-los tornado um povo peculiar, e caindo nas idolatrias de seus vizinhos pagãos, profanaram os altares de Jeová com o fogo impuro de deuses estranhos.

Mensagem após mensagem lhes havia sido enviada por aquele Deus que se designara apropriadamente como “longânimo e abundante em bondade”—mas tudo foi em vão. As ameaças e advertências dos profetas foram ouvidas com desprezo, e os mensageiros de Deus foram tratados com afronta, e daí o resultado fatal que é detalhado nas passagens subsequentes da Escritura lidas perante o candidato.

Por isso fez vir sobre eles o Rei dos Caldeus, que matou à espada os seus jovens, na casa do seu santuário, e não teve compaixão de jovem, nem de donzela, nem de velho, nem do que por causa da idade se encurvava; a todos entregou nas suas mãos. E todos os vasos da Casa de Deus, grandes e pequenos, e os tesouros da Casa do Senhor, e os tesouros do rei e dos seus príncipes, tudo isso levou ele para Babilônia.

Mas o Rei dos Caldeus não se contentou com os ricos despojos de guerra que havia obtido. Não lhe bastava que os vasos sagrados do Templo, feitos por ordem do Rei Salomão, e sob a supervisão daquele “operário curioso e astuto”, que havia “adornado e embelezado o edifício” erguido para o culto de Jeová, se tornassem presa de um monarca idólatra. Os graves pecados do povo e do rei exigiam uma penalidade mais pesada. A própria Casa do Senhor — aquele edifício sagrado que havia sido erigido na “eira de Ornã, o Jebuseu” e que constituía a terceira Grande Oferenda da Maçonaria no mesmo lugar sagrado, devia ser queimada até os seus alicerces; a cidade que fora consagrada pela Sua presença devia ser arrasada; e seus habitantes deviam ser levados para um longo e doloroso cativeiro. Assim, a narrativa da devastação prossegue da seguinte forma;

“E queimaram a Casa de Deus, e derrubaram o muro de Jerusalém, e queimaram a fogo todos os seus palácios; e destruíram todos os seus vasos preciosos. E os que escaparam da espada levou ele cativos para Babilônia; onde foram servos dele e de seus filhos até o reino do Reino da Pérsia.”

Estes eventos tiveram lugar no ano 588 antes de Cristo. Mas não devemos supor que este tenha sido o começo do “cativeiro de setenta anos” predito pelo profeta Jeremias. Esse [cativeiro] na verdade começou dezoito anos antes, no reinado de Joaquim, quando Daniel estava entre os cativos. Contando desde a destruição de Jerusalém sob Zedequias, que é o evento registrado no Arco Real, até o término do cativeiro sob Ciro, teremos apenas cinquenta e dois anos, para que possamos prontamente entender como havia, entre os homens idosos reunidos para verem lançados os alicerces do segundo templo, muitos que haviam contemplado o esplendor e a magnificência do primeiro.

Mas embora a cidade tenha sido destruída, e o templo queimado, os profundos alicerces deste não foram destruídos. A Arca da Aliança, com o Livro da Lei que continha, foi indubitavelmente destruída na conflagração geral, pois não lemos nenhum relato de que tenha sido levada para Babilônia, mas a sabedoria e a previdência de Salomão haviam feito uma provisão quatrocentos e setenta anos antes, para a preservação segura de uma imagem exata daquele cofre sagrado.

Tradução Ir.: Celes J Garcia Junior

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